9.3.08

o diabo roubou minha mulher

só me sobrou um pires quebrado, um cinzeiro de 1,99 (nem fumo!) e um maço de cabelo entupindo a pia do banheiro.

quando a gente batia boca ela calçava as botas e saia batendo a porta. eu via pelo olho mágico que ela chamava o elevador mas não tinha paciência de esperar; toc toc toc escada abaixo. voltava umas três da manhã com a cara borrada, se enfiava debaixo do edredon, me chamava de meu-amor e dormia respirando no meu cabelo.

duas semanas já que só vinha pra cama com aquela camiseta de político. escancarava a janela e suava a noite inteira, sem nem encostar em mim. acho que enjoou da dieta da sopa, dos concursos na TV, da sandália encardida, do cheiro da geladeira, do barulho da máquina de escrever, da hortelã firme & forte no vasinho, da garrafa d'água do lado da cama. ela, a outra, aposto que não é cotidiana assim.

acho que trabalham junto. lembro que uma vez trouxe um pedaço de empadão caseiro enrolado em papel-toalha, 'fulaninha é um doce'. mas como se vende barato. posso ver as duas fumando juntas pela rua, olhando os sapatos de salto nas vitrines, de braço dado. tomara que se queimem ou pelo menos façam um furinho na bata que eu, eu dei.

me falou muito quieta que achava melhor ir embora e que vinha buscar as coisas depois. o porteiro disse que apareceu aqui na hora do almoço, imagino que com a outra lá, o coitado nem comentou. pelo menos os móveis eram todos meus, de qualquer jeito. vou parar de trazer essas meninas pra criar, nenhuma dá futuro. fico aqui tomando coca sem gás e regando o vasinho mesmo.

e ainda me roubou a saia rosa, a bruxa.

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