1.11.06

cinco canções.

if i could smile at anything you said
we could be laughing lovers
[i think you'd prefer to be miserable instead]

sou uma pobre pessoa com gripe que sente cada braço pesar um bozilhão de quilos & tem uma esponja meio mofada no lugar do cérebro. então, do desconforto dos meus dias, lá vai uma história de amor em cinco atos; ou cinco histórias de amor de um ato; ou amor, um ato - a história:

  1. it had to be you

    era noite, garoava. depois de três, quatro, cinco garrafas, o asfalto era um marshmallow preto grudando meus pés no chão. escutava os outros gargalhando e sabia que uma daquelas vozes saia da minha garganta, mas era como num sonho já meio esquecido de manhã, aquela sensação morna de apatia. senti com surpresa um braço deslizar na curva do meu, enquanto minhas mãos enfiadas no bolso da jaqueta contavam moedas sem parar. o peso dela - pendurada no braço tinha uma mulher inteira - me desequilibrou, e nunca mais consegui andar direito.

  2. meet me in the bathroom.

    'oi, eu não estou em casa no momento, deixe seu recado depois do BEEEEEEEEP'. 'oi mmmm oi eu estava pensando se na terça dava pra gente, se dava pra mudar pra terça porque eu vou ter um compromisso depois e coisa de trabalho, você sabe. aí a gente podia mmmm será que a sessão é no mesmo horário? vou chegar meio em cima da hora, a gente eu você podia me esperar dentro da sala mesmo. não esquece a pipoca, tá?'

  3. wraith pinned to the mist (and other games)

    ela não entendia direito como é que tinha sido convencida a ir numa festa junina, ainda mais à carater. socados no carro, um fiapo de chapéu de palha conseguiu se enfiar olho dela, e, na tentativa de acalmar a ardência e parar as lágrimas, acabou esfregando numa mancha ainda maior a rodela de batom rebocada no rosto. enquanto todo mundo se espalhava pra comprar vinho quente & pipoca & pé-de-moleque & o escambau, ela se encostou de mau humor e braços cruzados contra uma pilastra, a música alimentando o tiquinho de dor de cabeça que ela tentava ignorar o dia todo. e aí, furando a fila do pessoal que ia dançar quadrinha, ele apareceu empunhando heroicamente uma maçã do amor, a boca já rebocada de corante barato e sorrisos.

  4. you're the reason i'm leaving

    eles sempre acharam ridículo aquilo de bate-boca em público: se você tem o que reclamar, reclame no seu canto e não faça todo mundo que teve o azar de passar na rua naquele momento prender a respiração em vergonha alheia. mas. bem. aconteceu. ela ficava cada vez mais vermelha, brandindo a bolsa como uma fada faria com uma varinha, e a voz dele ia aumentando de volume a cada passo que eles davam, cruzando a rua numa espécie de tango torto. quando finalmente chegaram na porta do prédio e viram os olhos arregalados do porteiro, deram as mãos em fúria e sorriram um sorriso seco, antes de chamar o elevador. quando chegaram no seu andar, se afastaram como se cada um tivesse engolido um ímã idêntico, e não falaram mais nada o resto da noite. ele dormiu por cima do lençol, ela deixou um bilhete no travesseiro antes de sair pro trabalho.

  5. i don't mind if you forget me

    nossa, seis meses fazem uma diferença enorme, tô te falando. encontrei os dois naquela salinha de espera da rodoviária, iam descer pra praia, ela tava com aquele vestidinho meio azul meio verde, sabe? ela ficava o tempo todo com a cabeça meio de lado, como quem diz, 'ó, é meu', encostando no ombro dele e mostrando aqueles dentes amarelados. não que eu me importe, por mim ele podia comer até o frankenstein, mas qual é a dela? fui toda apaziguadora, assim, simpática mesmo, deixei uma cadeira vazia do lado dele pra colocar a mala e tudo. como se não encostando eu apagasse o ano dois meses e treze dias que ele passou dormindo com a cara enfiada no meu cabelo.



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