28.9.06

a terceira vez que vi teresa

a gente marcou de se encontrar às setemeia na frente da bilheteria do cinema. demorei a decidir ir de sandália ou tênis ou sapato, a saia dançando agitada cada vez que eu cruzava o quarto, meu vulto sorrindo embaçado no espelho. cheguei um pouco antes, porque tenho medo de me atrasar e de irem embora e da sensação de abandono de olhar o relógio e ver os minutos passando e todo mundo na face da terra sabendo que ninguém vai chegar. ela apareceu pelo outro lado - o que eu não estava olhando disfarçadamente como se só quisesse ver mais detalhes do outdoor -, claro. disse meu nome & eu me virei & disse 'oi'.

a primeira impressão foi de que a gente tinha sido colega no jardim de infância e ela estava muito contente de me reencontrar, com uma familiaridade meio apagada pela vida. mas não, né, era a primeira vez que eu ouvia aquela voz entre os lábios meio brilhantes (manteiga de cacau? gloss? saliva?), que eu via o cabelo curto voando pra todos os lados e se enroscando no aro dos óculos.

compramos os ingressos e vimos o filme comunzinho. mocinho perturbado na cidade em ruinas simbolizando dificultosa situação familiar e um ou dois pares de pés descalços. saímos pra rua conversando por cima da conversa dos outros, tomamos um café, nos encolhemos do frio, as mãos escondidas & tímidas enfiadas até o fundo do bolso dos casacos. pegamos o metrô e nos despedimos numa estação qualquer, com um abraço desengonçado.

da outra vez, marcamos num fim de semana, às três, na entrada de um parque. uma garoa fina se fingia de suor no meu rosto, e ela carregava um saco de biscoitos de polvilho. visitamos uma exposição pretensiosa cheia de desenhos abstratos feitos com giz de cera. comprei água de coco e sentamos num banquinho. ela usava uma cacharrel meio bordô, o rosto muito pálido lá em cima, o topo do farol puxando meus olhos de sereia sonolenta.

da terceira vez, eram cinco e meia e eu tinha acabado de sair do trabalho, a ponta do pé latejando contra o couro do sapato novo. ela chegou resmungando das mudanças do clima e me pediu pra segurar a bolsa abalhotada de notas fiscais, eu comentei animada o cedê pirata que tinha trazido embrulhado numa folha de revista.

e foi então que ela se desabotoou, e puxou primeiro a manga esquerda do casaco azul, e depois a direita, e eu vi pela primeira vez os pelos claros que cobriam o braço dela de luz, e minhas mãos ficaram muito úmidas muito rápido, e ela estendeu os dedos pra pegar a bolsa de volta, e uma veia riscava de azul a dobra interna do cotovelo, e eu me apaixonei, e ela arregalou os olhos como fazem nos quadrinhos japoneses, e minha boca se jogou feito náufrago contra o último pedacinho do casco flutuando no mar que é a avenida paulista.

No comments: