14.9.06

rapunzel

numa dessas pausas que o mundo dá pra respirar, ela soltou a caneta na cama desfeita e fechou os olhos. o barulho da rua ia morrendo, andar por andar, até chegar lá no alto feito um murmúrio de rio. o sol rasgava quente através das cortinas, dormindo agitado na pele mal coberta pelo lençol. um bloco de notas com propaganda de loja de calçados esperava paciente. ela abriu os olhos, escavou por baixo do travesseiro atrás da caneta, bocejou, deixou a tinta salivar de leve no papel. achei que tinha esquecido. a tampa esfiapada pelos seus dentes esbarrou na boca. aí aconteceu de aparecer. o telefone gritou agudo, num canto. as pupilas dormentes dela despertaram & se expandiram. feito um sonho. largou a caneta, rolou na cama, esticou o braço, e o lençol se prendeu em uma volta completa ao redor do tornozelo. 'alô?', 'alô', '...', 'alô, quenhé?', 'fulana', 'ah, desculpe, foi engano'. depois do clique metálico, ela se soltou dos braços moles do sono e do lençol traiçoeiro, levantou da cama, arrastou os pés até o banheiro, levantou a camisola, sentou no vaso, mijou, se limpou, levantou, abriu a torneira e se olhou no espelho. o telefone berrava de novo, num reino muito distante. a água se jogava feito uma escada da boca da torneira, enchendo suas mãos curvadas. ela encarou as pálpebras inchadas do seu reflexo e mergulhou. o telefone gemia, desconsolado, cavaleiro de armadura encontrando a torre vazia de princesa.

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