31.5.06

if you can't fix it, you gotta stand it.

'as coisas sempre começam depois do meu aniversário', eu repito enquanto dou uma risadinha morna. é claro que é mentira, mas soa bem (me pego acenando com a cabeça, cara concentrada, escutando os outros me contarem o que eu já sei - às vezes faço carinha de surpresa, quando o cansaço não é muito). dou exemplos até: enumero as pessoas que conheci, os lugares em que eu fui, os beijos que eu dei, os sonhos que eu sonhei, as ruas nas quais eu me joguei, as doenças que eu tive.

observe, observe, como tudo é focado em mim, como eu ativamente forço a vida a me viver. é quase como-se eu estivesse num coma auto-induzido, assim, na primeira metade do ano. esperando a Hora Certa de agir.

nunca existe hora nenhuma, penso.

e penso, também, e claro, e obviamente, e mais que naturalmente, que eu estou certa. acho que minhas opiniões são razoáveis, bem argumentadas, entremeadas de teorias & empirismos na medida exata. mesmo quando agora é o oposto, mesmo quando tenho que, novamente, agir ativamente na relação eu-mundo: meu desejo é arrancar os famosos tufos de cabelo & rachar-me a cabeça no meio-fio. sistematizo como isso significa um tipo de fraqueza, um medo, uma bola de pelos navegando no estômago, um ranger de dentes, tudo muito curável & raciocinável & aceitável. esfrego uma mão na outra, gemo pelas calçadas afora, mas sei melhor que o Certo é deixar a bola de pelos ser digerida discretamente.

(só acredito em quem me acha linda quando acham isso belo: minha cara de enjôo. gostar de fotos risqué em preto & branco é fácil pra qualquer um com dois oitavos de cérebro. amar uma imagem que não repara em você, que não se interessa pela sua atenção, isso é ver beleza. a distração. não o desejo pelo próprio olho.)

e de novo, obviamente, me sinto completamente ridícula cada vez que o dedo bate no teclado. sei que esse circuito de achar-ridículo-escrever-mesmo-assim-e-inclusive-publicar remete ao famoso milagre da transmutação da 'qualidade' em 'defeito': os resmungos de 'eu não devia te contar' só ecoam o velho 'vejam como eu sou sincera, porra'; assim como o 'eu não sou uma beleza padrão' quer dizer 'sou linda e original' & 'não sei conversar com ninguém' geralmente recebe o complemento mental 'porque eu sou muito superior & incompreendida, bouhou'. o que torna tudo mais conscientemente ridículo ainda.

ê, vidão.

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