21.4.06

meu amante inexistente #421

era uma vez um dia bem fresco, em que eu deitei no chão e pensei em você. quis te desenhar escrever cantar fotografar, mas decidi só te pensar mesmo. porque o meu pensar constrói o mundo, e sem teu modelo recheado de lembrança & desejo (abril é o mês mais cruel) não tinha jeito de por a cabo qualquer uma das idéias iniciais.

pensei: duas e meia da tarde, terça-feira. o gramado meio seco e pinicando e meu lençol amarelo cheio de bolinha por cima. você deitado no meu colo contando uma história. eu olhando pras nuvens e mexendo no teu cabelo. grupos de pessoas cruzando a praça, um cachorro meio amarelo mancando e um senhor de camisa xadrez vendendo algodão doce. mais tarde, na tua cama, me seguro nas grades da cabeceira enquanto você, de joelhos e sussurando qualquer coisa carinhosa e ininteligível, me fode por trás. acordei gelada de madrugada, porque você tinha derrubado o cobertor no chão. o teu rosto úmido de suor, os cabelos grudados na testa. virei pro outro lado e me cobri com o teu braço.

uma vez a gente brigou porque você disse que eu menti, e eu disse que não. desliguei o telefone na tua cara e chutei minha caixa de sapatos. depois de quarenta e sete minutos e vinte e dois segundos você ligou de novo.

às vezes você ficava bem quieto e eu deitava no teu peito. nunca escutei teu coração disparado.

aquele CD que você me deu, acabei dormindo na primeira vez que ouvi. e quase joguei fora quando me mudei. sem querer.

quando a gente ia no cinema, você esquecia de pedir o refrigerante sem gelo. a gente passava metade da sessão tomando uma água melada e sem gás. revezávamos as camisetas, pra limpar os óculos. na hora de sair, as suas pernas sempre estavam formigando, por causa do peso das minhas em cima dos seus joelhos. volta e meia eu tentava te masturbar, mas você ria e tirava minha mão de dentro da sua calça. você me fazia ficar até o fim dos créditos, os limpadores encarando a gente do topo das escadas.

você tomava leite direto da caixa, comia doce na minha mão, enfiava o garfo na panela. gastava metade do meu sabonete num banho. atravessava a rua na frente dos carros, me puxando pela mão. ignorava escadas rolantes, pulava no elevador. respirava fundo no meu cabelo, mas não suspirava. beijava os meus pés e me fazia cócegas, e eu sempre acabava batendo a cabeça na quina de algum móvel. nunca me escreveu nem um bilhete, mas vivia rabiscando nos meus braços. carregava balas de canela na mochila, e lapiseiras sem grafite, e livros atrasados na biblioteca, e saquinhos de mostarda, e um par de meias. esqueceu meu aniversário. tinha uma bicicleta verde oliva. apertava minha mão dormindo. me esperava depois do trabalho pra ir comer churros. deixava a porta do banheiro aberta.

já é o suficiente pra uma música, acho. ou curta-metragem abstrato.

No comments: