10.2.06

a vida acordada

uma vez eu acordo, e depois outra, e depois outra. é o mesmo dia. o lugar eu nunca conheço. não, é difícil caber no corpo depois de. a sensação de morte grita através da pele amortecida, da terra nos olhos, do emaranhado de cabelos-vermes-cobras beijando a nuca. tento expandir minha sensibilidade para além do desespero, forço os nervos pra fora, pra fora.

se tem outro corpo perto de mim, tento identificar a situação de forma discreta & silenciosa. estou suada? dolorida? pegajosa em locais específicos? nos tocamos de alguma forma? movendo os dedos, o que posso tocar? em última instância, tento me desvencilhar do sono alheio e crepito junto às paredes. elas têm cor, textura, história? as janelas exibem vida? a lâmpada no teto é de quantos watts?

os níveis de luz são enganadores. muitos abajures fingem de sol, muitos dias fingem de noite, muitos céus fingem de mar. as roupas também nunca elucidam bem o caso: festejos nem sempre ocorrem em datas especiais, maquiagem não indica nada além de fantasia, a roupa de baixo tende a ser pega de surpresa entre um banho e outro.

quando é difícil demais abrir os olhos, ou mesmo identificar se ainda possuo visão (como descobrir o modo de uso desses instrumentos delicadamente alheios?), uma boa pergunta é: se eu estico os braços, eles seguem até onde? agitando de leve os calcanhares dá pra distinguir se é cama rede chão mato sofá lixa cobertor areia lajota travesseiro-misteriosamente-deslocado água espinhos útero etc.

caso os estímulos sejam razoavelmente positivos, caso chovam diamantes, caso respirar não me congele, caso o sangue se concentre por dentro, caso uma imagem de memória sonho desejo se estampe no meu peito, penso: o que eu faria se essa fosse a minha vida? e vivo. se não, eu morro.

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