20.1.06

purgatório, cena IV

mais dois pensamentos e atravessou a rua como se, emulando, sendo réptil que serpenteia. uma vaga de carne & pele áspera, subiu a outra calçada num sibilo. o sol encarava do alto do poste. calou. a sola dos sapatos se agarrava em cada quadrado de concreto, um trabalho enorme pra comer o caminho. sustentava sem nem ver um papel amassado na mão, feito carta apaixonada mal-recebida, pendendo 'saudades de quando nós' & 'aquela noite na sua' por entre os dedos.

impressão só.

num espasmo, a mão relaxada soltou a nota que ainda esbravejava, nos gritos mudos que dão as letras em caixa alta, 'trago a pessoa amada em 3 dias'. sempre imaginava um pobre corpo sendo arrastado por grande mão invisível através de mares e avenidas, contorcido na incompreensão, até cair aos pés da pessoa amante. cruzando mundos & vidas. em três dias. o sol cobriu o rosto com nuvens de garoa fina. por que com os outros é tão...? chega. estacou ao lado de um carrinho de churros. baixou os olhos. o corpo girou em meia-volta, bailarina automática. e repisou os passos ao avesso, até voltar ao paraíso perdido.

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