26.10.07

post inacabado de 19/08/05

eles estavam na cozinha. ela estava sentada, colocando os talheres ao redor dos pratos, no balcão, enquanto ele levantava a tampa de uma panela fumacenta e olhava de relance. "quase", ele disse.

(o apartamento era recheado de silêncio, entremeado pela música baixa que se arrastava de porta em porta.)

"eu tenho uma coisa pra te contar. não é bem tipo um segredo, mas é uma coisa", ele disse, sentando na cadeira do outro lado do balcão. ela levantou o rosto e deu um sorriso em que um dos cantos do lábio se elevava como uma meia lua, enquanto o outro se achatava. era esquisito, mas ele sabia que isso significava que ela tinha achado engraçado. sorriu também.

ele levantou e desligou o fogo, levou a panela até a mesa. ela colocou suco laranjado nos copos altos, ele serviu o macarrão nos pratos. "cheira bem", ela disse, com os óculos embaçados pelo calor. "eu pus menos queijo dessa vez, aí pude colocar outras coisas pra dar gosto", ele respondeu, se é que havia o que responder.

começaram a comer.

"desde o momento em que eu percebi que amava você", ele disse, entre garfadas - ela sorriu novamente -, "eu decidi te esconder alguma coisa todo dia".

ela franziu a sobrancelha e tomou um gole de suco.

"não alguma coisa especificamente terrível, nem nada", ele explicou, "qualquer coisa, detalhe, porcariazinha".

"por que isso?", ela perguntou, balançando o copo para que liquido girasse, espiralando.

"pra ter coisas minhas", ele disse, antes de por mais macarrão na boca.

"pra isso você precisa mentir pra mim?"

(o suco rodava, rodava.)

ele engoliu e largou o talher apoiado no canto do prato, ainda pela metade. "não é mentir, é omitir". a voz dele era calma, e ela tomou mais suco. "é óbvio que não é possível contar e falar tudo, o tempo todo, mesmo que você não queira exatamente mentir... de qualquer jeito as pessoas omitem isso ou aquilo, inconscientemente, ou mesmo conscientemente, quando não acham relevante e tal".

"e o que você me omitiu...", ela disse, com o sorriso esquisito no rosto de novo, "era relevante?"

"às vezes", ele disse, olhando pro balcão e traçando mapas imaginários ligando o prato ao copo, o copo à panela, a panela...

"tipo?"

"não sei. a gente tá junto faz anos. deve ter alguma coisa". a mão dela cruzou o balcão e segurou a dele. ele levantou o rosto. ela não sorria. "então todo esse tempo você me escondeu coisas deliberadamente, coisas aleatórias, importantes e desimportantes... todo dia?".

"é".

"e por que me contar agora?".

(a pressão dos dedos dela ao redor dos dele aumentava.)

"...aconteceu alguma coisa?"

"não... não sei". ele empurrou o prato para o lado e deitou a cabeça na pedra fria do balcão. "com o tempo, isso ficou tão natural que, já no ato de fazer alguma coisa, eu pensava no potencial dela como omissão... virei um tipo de colecionador. às vezes eu acordava e me via decidindo que aquele era o dia pra esconder alguma coisa bonita. ou uma fala de diálogo. ou uma pessoa..."

"uma pessoa?", ela interrompeu.

ele deu uma risada fraca. "sabia que isso ia te interessar".

ela também afastou o prato, a panela, e deitou a cabeça no balcão, os cabelos deles se misturando. suspirou.

"não é outra pessoa, o motivo. nunca foi outra pessoa, mesmo com tanta gente passando por todos os lados... inclusive o de dentro".

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