11.7.05

uma tragédia de costumes

i keep on talkin' trash but i never say anything
and the talkin' leads to touchin'
and the touchin' leads to sex
and then there is no mystery left
(and it's bad news, baby, i'm bad news
i'm just bad news, bad news, bad news)

[iluminação muito, muito tênue. um palco cercado de cortinas cor de vinho, desbotadas e puídas. um lustre (daqueles de questionário policial) apagado balança lentamente sobre uma cama com cobertores desfeitos, sem lençol. de súbito, um abajur fraco se acende do lado esquerdo da cabeceira. vêem-se duas pessoas. ELE está esticado em diagonal, seus pés na direção do abajour (mas enrolados no cobertor), a cabeça repousa em uma mão, o cotovelo se apóia em um travesseiro sem fronha. ELA está sentada no meio da cama, segurando uma ponta do cobertor contra o seio, e retira a mão do interruptor pendurado entre a cama e a mesa de cabeceira (onde fica o abajur)]

[ELA, apertando o cobertor ao redor do corpo e se abaixando lentamente na direção dELE]
você é lindo você é lindo você é lindo você é lindo [ela se afoga em saliva] você é lindo lindo lindo [sorri]. tão lindo e [deita na frente dELE, que observa sem sorrir]... penso.

[ELE, deitando e estendendo um braço ao longo do corpo dELA]
é?

[ELA, em um sussurro]
que gosto amargo quando você aperta minha garganta

[ELE]
mas isso foi ontem

[ELA]
ou antes, eu não sei. será que é tarde, agora? [vira o rosto na direção da platéia, os olhos míopes varrendo a escuridão]

[ELE, enroscando os dedos no cabelo dELA, que volta o rosto para ELE]
deve ser. [devagar e cadenciado] você tem frio? fome? cansaço? tédio? desejo? preguiça?

[ELA, deitando de costas e encarando o teto]
eu...

[ELE, apoiando os cotovelos ao redor do corpo dela, o cabelo caindo na testa dELA]
sonhos? dinheiro? algum plano? coceira? chocolate? tempo?

[ELA, levantando um braço e mexendo no cabelo dELE]
eu...

[ELE se debruça sobre ELA, beijam, mexem. o travesseiro cai. ELE ri baixo contra os lábios dela. mexem. ELE estica um braço para fora da cama, tateia, puxa uma sacola]

[ELE, ainda tateando]
chocolate? [puxa uma barra meio comida, enrolada em papel alumínio, sai de cima dELA e começa a desenrolar o chocolate]

[ELA, virando de lado]
claro. eu...

[ELE, colocando um pedaço de chocolate na boca e esticando a barra para ELA, que morde]

[ELA, mastigando]
eu acho que meio que amo você. ou poderia, acho, assim, amar. [engole]. não que eu não saiba, ou o que é. mas.

[ELE engole o chocolate e olha com curiosidade para ELA, que tira o cabelo do rosto]
certo.

[ELA]
certo.

[eles comem em silêncio, quebrado apenas pelo barulho do papel alumínio. demora. o chocolate acaba.]

[ELE]
eu não acho que eu queira mais.

[ELA, amassando o papel]
eu não acho que tenha mais, mesmo

[ELE, deitando de costas ao lado dela]
não, não o chocolate

[ELA, devagar]
ahmmmmm

[ELE]
mais que isso

[ELA]
sim, certo

[ELE]
porque, sabe, não deve ter mais que isso, mesmo

[ELA]
tipo o chocolate?

[ELE ri]

[ELA]
você se contenta com isso?

[ELE passa a mão no rosto, respira fundo]
não... sei. não. por que, e depois?

[ELA]
depois não é, agora é. [mexe os braços] aquela história.

[ELE]
eu não tô falando que é isso. é tudo isso. e depois, e depois? não como acaba, mas... e depois?

[ELA, irônica]
a gente pode ficar aqui pra sempre... [beija o pescoço dELE] até ser comido por cães [deita no ombro dELE]

[ELE, passando um braço por baixo dELA]
ótimo plano

[ELA]
claro que é ótimo. é meu. [ri]

[ELE]
vê, é bem isso.

[ELA murmura algo ininteligível]

[ELE]
isso, isso.

[ELA levanta a cabeça e encara o rosto dELE, intrigada]

[ELE suspira]

[ELA, com a voz arrastada]
certo.

[beijam, mexem. ELE bate o pé na mesa da cabeceira, o abajur apaga]

[ELA, rindo]
bora se pegar

[respiração pesada. beijam, mexem. demora.]

[ELA]
eu sonhei com aquela vez em que você me levou no farol, mas no meu sonho a gente conseguir subir tudo.

[ELE]
era bom?

[ELA]
era bonito. mas não tinha mar. eram flores. roxas. um campo ondulando.

[ELE]
hmm

[ELA]
eu podia, sim. amar você. se fosse isso. comer chocolate, ver flores. mas logo você vai fazer merda e o amor deve ignorar isso, superar

[ELE]
e não vai? não pode?

[ELA]
eu não sei. [o abajur se acende. pode-se ver que eles estão entrelaçados e que uma das pernas dELA surge de debaixo do cobertor e toca a mesa da cabeceira]. não sei nem pensar, porque não é de pensar.

[ELE respira fundo nos cabelos dELA, que se espalham pela cama]

[ELA]
uma vez eu sonhei que você dizia que me amava. eu perguntava 'o quê?', porque não tinha certeza do que tinha escutado. acho que eu não escutei direito de propósito. a dúvida...

[ELE, interrompendo]
mas eu disse

[ELA]
não, nunca disse, não pra mim.

[ELE abre a boca, ela cobre os lábios dele com a mão]

[ELA]
não mesmo.

[ELE lambe os dedos dELA. beijam, mexem. o lustre começa a acender, muito lentamente]

[ELE]
é cedo

[ELA]
amanhece.

[beijam]

[ELA]
eu queria não ter dito nada, eu...

[beijam]

[ELE]
você pode escrever, então. ficcionar.

[ELA]
eu não posso escrever mais. não vai. não rola. me sinto a.. quase a... Sibyl Vane.

[ELE]
olha que eu te largo

[ELA]
aí eu me mato, Dorian [beijam] ou não. claro que não.

[ELE]
claro

[o lustre vai ficando mais forte]

[ELA]
afinal, é isso, e isso não é escrito. é... é...

[o lustre brilha em potência máxima e ofusca a platéia. as cortinas se fecham. beijam, mexem.]

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