27.7.05

ascensão e queda do romance realista

se ela não abrisse a porta ia ficar tudo bem porque ele estava chegando e ia fazer plaft plaft na porta, porque nem tocar a campainha ele toca, só plaft plaft, e eles marcaram 19h00? 19h00, então faltam minutos, diminutos segundos e ele vai chegar e ela vai abrir a porta e vai ser um desastre. eles tinham combinado a verdade toda a verdade nada mais que a verdade mas a verdade é sempre mais e às vezes eles pensam em falar tudo e não falam nada e bocejam viram um pra cada lado e dormem mas outras vezes tudo é muita coisa demais e quando abrir a porta ela não vai conseguir não dizer e por isso ela olha ansiosa pra as unhas das mãos e pensa que esse esmalte coral realmente não ficou bom porque parece encardido rosa.

o elevador vai subindo ele por dentro das tripas do prédio com um gemido e meio quicando e boa noite tchau pra mulher do quarto andar com as sacolas de mercado e tchau falôu pro sujeito com a blusa de lã xadrez de escritor de filme dos anos '80 e hmmmmmmmm os cabos estendem os braços pro alto mas nunca chegam a tocar o céu e décimo-quinto andar.

a luz do corredor, automática, acende.

e quando plaft plaft ele raspa os dedos pela porta ela levanta da poltrona coberta com a manta que eles compraram naquela viagem pra serra e dá dois passos e meio e estica o braço e a chave gira a maçaneta gira a terra gira as dobradiças giram e abre-te-sésamo um buraco entre os dois pronto pra engolir tudo que eles queriam chamar de amor.

ele sorri e dá um passo e aí eles estão a meio passo, menos até, meio centímetro os pontos mais distantes, porque é um abraço e depois um beijo e o pescoço dele cheira a sereno e os cabelos dela ainda estão úmidos e ele junta o rosto dela entre as mãos como se cada metade fosse uma face oculta da lua e é quente porque ela sua melado soda cáustica neblina e então os lábios se abrem e ela diz.

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