22.5.05

a verdade que não precisa de flores para saber que está morta

tem-me perseguido, como um ente maligno, o destino de não poder desejar sem saber que terei que não ter. (...) um romântico faria disto uma tragédia; um estranho sentiria isto como uma comédia: eu, porém, misturo as duas coisas, pois sou romântico em mim e estranho a mim, e viro a página para outra ironia.

(...)

sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo. desenrolo-me em períodos e parágrafos, faço-me pontuações, e, na distribuição desencadeada das imagens, visto-me, como as crianças, de rei com papel de jornal, ou, no modo como faço ritmo de uma série de palavras, me touco, como os loucos, de flores secas que continuam vivas nos meus sonhos.

(...)

tonrnei-me uma figura de livro, uma vida lida. o que sinto é (sem que eu queira) sentido para se escrever que se sentiu. o que penso está logo em palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que são outra coisa qualquer. de tanto recompor-me destruí-me.

(...)

e alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a gargante seca. mas aí, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei. a ficção acompanha-me, como a minha sombra. e o que quero é dormir.

[bernardo soares, livro do desassossego, 193]

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