1.4.05

é tudo mentira

eu te amei em segredo numa tarde suada, durante um passeio mais velho do que os pais dos pais dos pais do nosso sofrimento, num parque. podia ser qualquer lugar em que houvesse grama para os pés cobrirem de beijos, porque todos os tempos são o mesmo em certos campos quebrados de pedras e enfeitados de cheiros. as árvores chacoalhavam em um déjà vu de êxtases quietos e murmúrios sincopados, e qualquer escada levava ao topo de uma torre arcaica de suspiros. o córrego corria, não, deslizava, não, se arrastava, nos isolando num degredo em meia sombra, a mesma que mal e mal cobriu a primeira vergonha de adão e eva. soava um sibilo de cobras, carroças, apitos de vapores, bondes, rebanhos, foguetes, ônibus, sinos, ipods com fones quebrados. imemorial e imaterial, eu te amei por toda uma tarde infinita de agoras. e em segredo, como a maçã que repousou com duas mordidas entre verde e verde, com a culpa do inevitável melando suas sementes que só faziam apodrecer, eu fui Desejo por uma tarde inteira.
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feliz dia da mentira.

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