12.4.05

all i have to do is dream

ficionista é foda. o homero faz todo mundo se ferrar nas tramazinhas que ele juntou: cedo ou tarde você escolhe ou morrer velho esquecido num canto ou morrer novo e memorável. soa sempre um mau negócio. mas o odisseu não precisa escolher, ele tem glória e tempo. cheio de aventuras e mulheres e deuses e ainda tem uma esposa, um filho, cama e cobertas. e por quê? porque ele é o contador de histórias, oras. ele é todo bonzão, porque pode usar a força mas geralmente se vira muito bem com as palavras mesmo. enrolão. todo escritor é um mentiroso.

o sandman, então. o gaiman podia ter dado foco em qualquer um dos endless. destiny, death, destruction, desire, despair, delirium. mas não, o negócio dele é o senhor dos sonhos (dream, dream, dream). e, vamos lá, por quê? porque é o contador de histórias, claro. pra que dar atenção pro Destino que sabe o que foi é será, se você pode dançar feito uma mariposa bêbada ao redor da lâmpada pelo rei do que nunca foi, não é e nunca vai ser?

eu raramente sonho, assim, dormindo. quando eu consigo lembrar nunca penso que aquilo é o que não foi mas podia ser, penso que aquilo é mesmo. é como eu vejo por dentro, pelo menos. através da minha miopia mental e tudo. mas eu sei Sonhar. volta e meia, nos meus diálogos, eu solto um 'eu penso'. assim, a frase completa, sozinha, solta. seguida de um silêncio que pode ou não ser interrompido pelo meu blablablá confuso de quem não sabe interpretar as cenas. porque eu penso Sonhando. tem gente que sabe já, que quando eu digo 'aí eu fiquei pensando', na verdade eu digo 'eu fiquei imaginando as coisas que não são'. se eu pensei em você, dificilmente foi nas lembranças, mas sim no meu desejo. do que não foi, não é e não vai ser (nada).

as pessoas geralmente são bem mais interessantes na minha cabeça. eu mesma sou melhor, no meu dentro. boa, viva. talvez eu nunca tenha falado com você, ou não tenha falado sobre coisas que importam pra mim, aqui fora. mas no meu Sonho tudo funciona: não fico com essa vontade eterna de ir embora, ou com a gripe da alma, ou com as cãimbras nas palavras. os diálogos são fabulosos. as pessoas tem atitude. é natural, deslizante, simples, me relacionar com as coisas e os seres.

bem assim, só. as coisas que não são, eu faço. e você acha que eu estou ali enchendo o rabo de salada e filé de frango, mas na verdade não. você acha que eu estou na fila procurando o cartão de ônibus, mas não. você acha que eu estou lendo deitada no sofá, mas não. você acha que eu estou no computador, sozinha, no escuro, mas não (e me pergunta porque eu estou ocupada ou DND, e eu estou sempre ocupada comigo: eu dou trabalho, eu me canso).

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