27.2.05

digamos sim

"Whatever happened to me in my life, happened to me as a writer of plays. I'd fall in love, or fall in lust. And at the height of my passion, I would think, 'So this is how it feels'.

[...]

My heart was broken by my dark lady, and I wept, in my room, alone; but while I wept, somewhere inside I smiled. For I knew I could take my broken heart and place it on the stage of The Globe, and make the pit cry tears of their own"

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É assim que é.

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Digamos que fui eu que cheguei atrasada e você me viu atravessando a rua com o capuz, e quando eu tirei o capuz não foi garoa, foram estrelas que caíram em cascatas pelo meu cabelo bagunçado e eu sorria e pedia desculpas. Digamos que eu não sentei no chão e que nós saímos andando, e na rua eu estendi o chocolate e você estendeu a mão pra pegar um pedaço, e digamos que você derrubou a cartela da paquera sem perceber e nós nunca chegamos a raspar "beijo" e "proibido".

Digamos que nós subimos a rua XV no meio da garoa e anoitecia, e com a boca empaçocada de chocolate nós tagarelamos sem parar até que você escorregou numa poça e me jogou contra um dos pilares das marquises pixadas dos bancos e das lanchonetes baratas. Digamos que foi assim que a gente se beijou primeiro, sem querer nem perceber, e na diagonal, e com gosto de chocolate. Digamos que era perto de um cinema, o Ritz ou o Luz, e passava um filme bom, e entramos e vimos pôsteres escuros enquanto a escada descia junto com os nossos pés enlameados. Digamos que as poltronas rangeram sob o nosso peso e só tinha mais meia dúzia de velhos suspirando, porque era véspera de feriado e era domingo e chovia, e que você pegou na minha mão, não eu na sua. Digamos que o filme era francês e eu traduzia por cima da tradução oficial, e você ria e ameaçava me botar pra fora da sala.

Digamos que quando a sessão acabou a gente tinha fome de salgado e fomos comer cachorro-quente numa esquina (e chovia, chovia) e sentamos nos banquinhos tortos e trocamos os elásticos de cabelo, e a mulher olhava de soslaio pras nossas risadas e o canudo na lata de coca era fino demais e eu só bebia espuma.

De qualquer jeito, depois eu ia ficar apaixonada e você ia ficar com gripe, e iríamos conversar noites e noites e também numa madrugada de outro domingo até que o sol amanhecesse e eu ia te mandar uma foto da aurora campinense, e depois você ia ver que foi ali que eu joguei um balde d'água nos seus sonhos, mas mesmo assim (até algodão doce murcha devagar, se você tomar cuidado), digamos que você vinha me ver & a gente ficava na minha cama, depois eu ia te ver & a gente ficava na sua cama, e você ficava me virando pra poder me olhar no rosto e meu pescoço doía.

Digamos que eu tivesse usado uma calcinha laranja, e só, e que tapasse os meus pudores com seu exemplar do principia discordia, da capa amarela, pra combinar. Aí você não ia perceber nada, porque nunca percebe (nem quer, de qualquer jeito) as coisas que vão além do seu campo de conhecimento e ia fazer piada e eu ia rir & roncar. Digamos então que você tivesse deixado eu cortar o seu cabelo, só um pouco, e você ficasse um charme e enquanto eu ia buscar a bandeja de comida uma menininha passasse olhando e você ia fazer piada e eu ia rir & roncar. Especialmente quando ela pegasse o mesmo ônibus que a gente. Digamos que sim, a gente pegou o Inter 2 juntos, e eu te salvei de um bebê vomitando ou quem sabe semi-sentei no seu colo enquanto você se encostava num cano.

E tanto faz, porque depois ia ser assim, digamos que eu disse não e você disse sim, e aí era só silêncio e digamos que eu percebi, e ouvi coisas e li coisas e aí tudo fazia sentido & enquanto isso você tapava os olhos e os ouvidos e dormia. Digamos que aí era sexta-feira e na fonte ali na frente um cara tomava banho e eu dizia sim e você dizia não, eu chacoalhava a cabeça e percebia que era assim mesmo, porque você se escondia dentro de um aquário sujo, onde eu via o seu vulto mas não podia tocar, até o dia em que, digamos, eu não quisesse mais tocar.

Digamos, sim, que depois fosse pior ainda do que chacoalhar a cabeça (inconformar é quanto pior que conformar?), porque era ridículo e eu não podia aceitar que fosse ridículo. Porque eu queria dar pras coisas o valor que elas tinham na hora, mas as lembranças se conspurcavam de patético & môfo. Digamos que eu raspei o bolor de agora e agora não é mais que um paralelo de antes, então antes foi onde agora não é, e agora é onde antes não foi. Digamos que. Imagine. Não diga.

(Digamos que você seja uma historinha, um álbum, um papel espetado na parede, um par de manchas roxas, uma taça de bebida, uma música sem batuques, uma noite de chuva, duas noites de chuva, uma pessoa).

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