16.2.05

atenção atenção atenção

you can scream & you can shout
it is too late now,
because...
you have not been
paying attention
paying attention
paying attention
paying attention

Digamos então que você acordou e ficou encarando o teto, procurando as ruas que ia cruzar e as pessoas que não iam te olhar no rosto quando passassem por você, e estavam todos lá. De cachecol e luvas, você enfrentou a garoa agulhando a sua pele e esperou o sol, mas ele não veio. Digamos que no ônibus alguém lia, sentado do seu lado, o livro que você sempre quis, mas nunca conseguiu por as mãos em cima. A cada curva, seu pescoço serpenteava mais e mais na direção daquelas páginas lotadas de preto e branco. Digamos que a pessoa percebeu e fechou o volume e a cara. Não, digamos que a pessoa percebeu e não se importou tanto, mas precisou descer e fechou o volume (porém não a cara) de qualquer jeito. De qualquer jeito, você ficou com o personagem principal, na frente de uma porta trancada no subterrâneo escuro de uma metrópole que amanhecia. Na rua, as buzinas em coro cantavam adeste fidelis. Vinde, vinde, vinde. Ao fundo, seu coração batia no ritmo de plic plic plic que fazia uma criança agitando uma lata de refrigerante com o anel metálico lá dentro. Plic. Digamos que você pensou que esse era o barulho que devia fazer o seu corpo se chacoalhado, plic, com a alma lá dentro, batendo nas costelas. Numa vitrine de manequins seminus, digamos que você viu seu reflexo e deu uma balançadinha. O silêncio (entrecortado pelos gemidos do seu intestino funcionando) só confirmou que não, você não tem alma, como tanto anunciavam o vazio pálido dos seus olhos, suas mãos que não fechavam em punhos perfeitos, seu telefone que não tocava, seus passos errando o meio-fio, e, especialmente, sua incapacidade de sair do subterrâneo.

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