2.11.04

driving in your car

neblina na serra. garoa. noite. caminhões. banco da frente. vim com o meu amigo cu tão apertado de medo que talvez fique impossibilitada de fazer minhas necessidades fisiológicas & ser sodomizada por um bom tempo. tem gente que se entroxa de legumes pra evitar um enfarte, tem gente que dorme em colchão duro pra não ficar corcunda, tem gente que não toma banho muito quente pra não ter caspa. eu odeio, odeio, odeio andar de carro, e evito o máximo possível. pra não morrer, entende?

como não acredito em além, toda forma de morte me parece estúpida. mas acidentes de carro são o ápice. talvez porque eu tenha sofrido mais do que a minha cota, até hoje, e escapado só com arranhões, hematomas e lascas de pele nos estofados, e ache que a próxima vez será, vocês sabem, a última.

exemplo um: meu tio, 24 anos, uma filha de três, se enfia de fuça num caminhão. adeus, adeus. exemplo dois: o vizinho e seus dois filhos, de 3 e 5 anos, atravessam a BR116 em busca de mais refrigerantes para uma festa de aniversário, capotam capotam capotam, vizinho morre na hora, filho mais velho passa quase uma hora preso entre as ferragens e o cadáver do irmão mais novo, passa três meses em coma. isso a cinco quadras de casa. exemplo três: meu pai entra na garagem de casa quando um sujeito faz um cavalo de pau ali na esquina, invade a calçada e joga o carro familiar contra a lixeira, quebrando vidros e causando cortes. minha mãe estava grávida de sete meses. exemplo quatro: quatro sujeitos, com idades variando entre 21 e 23 anos voltam bêbados de uma festa e, errando uma curva, caem dentro de um rio. o rio é raso, pouco mais de um metro, e muito estreito, um córrego chamado de 'chiqueirão'. as portas não abrem porque as margens são muito próximas, o vidro de trás não quebra porque está afundando na lama. os quatro morrem afogados.

e mais, e mais, e mais.

aí eu deixo de fazer uma coisa que queria tanto, que o On the Road e o Zen & the Art of Motorcicle Maintenance me atiçaram ainda mais, que a pequena nômade em mim implora pra por em prática. eu não posso viajar porque eu não suporto ir de um lugar pra outro cortando e cortando estradas. eu não consigo ler, porque enjôo. eu não consigo dormir porque estou certa de que a gente vai bater se eu, mera passageira, me distrair. mesmo ir no mercado de ônibus é uma Grande Aventura, acho que a gente vai tombar numa valeta e meu cadáver ensanguentado e profanado vai ficar no meio dos legumes, no mato. ou quem sabe na volta da aula o 3.61 tomba do viaduto e eu fico sameada na escuridão no meio dos meus xeroxes & canetas.

toda vez que eu chego em algum lugar, me dá um alívio soltar o cinto e pisar fora do veículo que tão fielmente transportou minha carcaça de um canto a outro. acho que se eu puder experimentar trens ou navios ou aviões quem sabe seja menos dramático, mas eu queria mesmo era me teletransportar.

se alguém tiver testando aparelhagens de transmissão de matéria por vias não-ortodoxas, me avisem.

No comments: