20.11.04

canção a dionisio

canção a dionísio

quando eu saí da terra, não saí da escuridão:
ainda estava úmida e quente
quando você me tapou os olhos com folhas
(a grinalda de hera, os ramos das vinhas)
e me mandou dançar.
a dança dos sete véus,
a dança das balas sete belo,
todos os sete pecados, todos,
eu imolei no altar escuro
por trás das minhas pálpebras.

segui as procissões madrugada a dentro,
descalça na lama, desnuda no vento,
atrás da imagem dupla
d'aquele-que-traz-a-loucura
e d'aquele-que-espanta-a-loucura:
como eu poderia ser de outro deus,
senão você?
as suas máscaras se trocam, se tocam.
em segredo, eu te adoro enquanto você
caça, desmembra, devora.
de muito bom tom seria beber seu vinho
e honrar a embriaguez periódica,
mas eu sei melhor.
rodopio nos azulejos e equeço as pitonisas,
a Ordem é previsível, não o Caos.
e você já me tocou, substância,
carne, não vapor,
carne, muito mais tóxica.
(as alucinações são incontáveis, incontroláveis, inomináveis)

já perdi a conta das vezes em que
fui pisoteada pela sua corte de sátiros,
cheios de cascos, rindo, todos bêbados,
me deixando pra morrer na beira do Egeu.
e depois o som da flauta.
e depois o coro das ninfas.
e depois a chuva, o sol.
e você.
a sua voz longínqua me disse
Coisas,
suas mãos me cobriram de espuma e música,
tateando, tateando, tateando,
e quando seus cabelos se emaranharam na minha pele
perdi o resto de sobriedade que eu poderia,
um dia,
vir a ter.

(eu ouvia as musas agitadas ao seu redor
e me intrigava.
o que eu fazia, o que eu faria,
no meio da balbúrdia que a sua presença queimava
na alma delas?
elas que davam de tudo, de todos os jeitos,
e, como eu,
só queriam estar do teu lado.)

e aí você me deixa, de novo,
mais desamparada, mais nua, mais descabelada.
rôo as unhas e escrevo seu nome ao contrário:
você não é você, você é o Outro;
você nunca foi você, nenhuma máscara encaixa;
você se derrama, alcólico, por tudo.
onde você vai reaparecer? você vai reaparecer?
se a grande metáfora do conhecimento é a luz,
a sua, mistério, confusão, dados rolando,
vai ser sempre de trevas.
junto todas as minhas tochas, mas elas não servem
pra iluminar qualquer caminho,
quanto mais o seu.
o eco dos meus passos cegos enche a noite,
e em todas as camas, quem dorme
sonha com você.

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