5.8.04

a enforcada

everyday is like sunday, everyday is silent and grey
hide on the promenade, etch a postcard:
'how i dearly wish i was not here'
in the seaside town... that they forgot to bomb
come, come, come - nuclear bomb

no meu tarot, volta e meia
me aparece a enforcada.
às vezes com o cabelo solto tapando o rosto
às vezes os pés balançando dentro de botas de salto
às vezes de pijama
eu nunca vou saber, nunca vou perguntar.
volta e meia ela aparece, sempre meio roxa.
às vezes já com a marca da autópsia também,
um sorriso estranho,
os olhos inchados de chorar.

ah, ah, Madame Sosostris, famous clairvoyante, had a bad cold, nevertheless... is known to be the wisest woman in europe, with a wicked pack of cards. here, said she, is your card, the drowned phoenician sailor.

eu lembro que debaixo de uns palmos de terra e uma placa de concreto ninguém faz nada mais. caput. prometi pra mim mesma que a não ser em caso de desespero, nunca mais vou fazer 40 horas por semana num trabalho. passo o dia todo querendo que passe, que voe o tempo, que seja logo cinco da tarde. passo a semana querendo a sexta feira.

tem que ser assim?

não tem! não tem! nem pode ser assim.

(you've got your whole life to do something & that's not very long)

volta e meia, no meu tarot, me aparece a enforcada.

meus pais, vejam só, trabalharam a vida toda. se ferraram um monte. meu pai, por exemplo, vendia amendoim e cachorro quente, fazia reposição em mercados de madrugada. ele tem as mãos fodidas de mexer com cabos e alicates e parafusos. e aí e se ele nunca for morar na praia pra tostar os bigodes no sol, como sempre quis? e aí se não der tempo?

é como se eu carregasse além da minha própria insatisfação, da minha própria angústia, mais todos os desejos insatisfeitos que eu vejo pela frente. de cada um. e mais, claro, a enforcada, feito um balão meio flutuando meio arrastando, amarrado no meu pescoço.

sabe, não adianta ficar dizendo que eu não quero que as coisas sejam assim, mesmo porque eu que fiz elas serem assim. duh. tô falando é que...

here is Belladonna, the lady of the rocks,
the lady of situations


tô falando é que eu sei. eu vejo. e mesmo quando não quero ver, quando só quero que chegue logo cinco da tarde pra eu sair correndo do trabalho pra qualquer lugar (pra unicamp? pro cinema? pra cama? pros braços de alguém?), tem todas as cartas do baralho se espalhando no chão, fazendo muito mais estrago do que as folhas dos ipês todos de barão geraldo.

come come, nuclear bomb.

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