8.5.04

serão palimpsestos?
serão alfarrábios, escritas cuneiformes,
hieroglifos - ou apenas grifos?
grifos ou negritos?
itálicos ou redondo?
tipo 33 ou 36?


fazer um livro é uma coisa interessante. pegar um original, páginas & páginas cheias de pesquisa, suspiros, horas de sono perdidas, palavras que alguém encontrou ali dentro da cabeça pra dizer qualquer coisa - não, não qualquer coisa, uma coisa que importe pra ele e... aí eu estou lá com aquela papelada na mão, na mesa, e sou paga pra ser melhor que o autor.

esforçado ou desleixado, todo escritor, quando entrega o original pra alguém (um amigo, uma editora, o vizinho do lado) considera a obra pelo menos boa. eu sei, as coisas medonhas você guarda numa gaveta pra só acharem quando você morrer... e jogarem tudo fora. acho que pra ter coragem de mandar pra ser publicado, quem escreveu acha que tá bonzão mesmo, praticamente perfeito. e ainda assim, eu sou paga pra saber que não é verdade, pra lapidar, pra ser melhor. pra polir o gênio (isso é muito, muito simbólico) alheio. pra ver o que ele não viu.

sabe, eu acho que pra trabalhar com textos pra publicação (tradução, revisão, diagramação ou preparação mesmo) você tem que ou ter uma memória absurda pra decorar toda a espécie de regra ou ter certo apego pela burocracia gramatical ou ter aquela intuição, meu deus, aquela intuição que te faz trocar palavras virgulas itálicos parágrafos porque você sabe que fica melhor de outro jeito. me pagam pra mexer nas sombras dos outros e eu nunca soube o que é um advérbio ou onde por crase. mas... in principio erat verbum.

mexer com palavras é o máximo de poder que eu conheço, o máximo que eu posso ter. quando eu escrevo as minhas coisas o universo gira todo muito calmo ao redor do meu umbigo... e quando eu mexo no que os outros escreveram, é como se eu estivesse roubando o umbigo alheio e colocando o meu lá no lugar, discretamente.

e ainda assim, a melhor parte disso tudo é quando eu saio de lá, do aquário, e atravesso ruas & cruzamentos quase inconsciente pra chegar na unicamp. walkman pendurado na mochila, sol se pondo, vento fresco, a cadência dos passos. as palavras todas, todas mesmo, moram agitadas & desordeiras em mim.

faço & refaço, faço & refaço, dez, cem, trezentas e noventa e sete, mil vezes as minhas falas pensamentos sonhos besteiras cantigas resmungos poemas historietas.

como diz o amigo saramago, que seria de nós se não existisse o deleatur?

essa possibilidade de desfazer-refazer que, alas, só se aplica pra uma meia dúzia de coisas. incluindo textos com pontuação suspeita ou enrolação. você põe uma barrinha na palavra e ali, do ladinho, você repete a dita barrinha & marca com um deleatur ou um xis o fim dela. na próxima versão ela se fooooooooooooooi para todo o sempre.



(eu até tentei desenhar um legítimo deleatur, mas foi impossível com o mouse. fiquem aí com o irmãozinho xis dele, que serve pra mesma coisa. e com substituição de letra e pedido de espaço.)

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