18.3.04

e eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
indesculpavelmente sujo.
eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
que tenho sofrido enxovalhos e calado,
que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda



tanto tempo passa e a gente fica andando pra frente e pros lados e em círculos & tanto faz.

me sinto incômoda e enrolada, como se ficasse tropeçando de quadrado em quadrado do tabuleiro. planejo coisas que me ocupam a cabeça dias inteiros e que não acontecem. faço coisas que parecem Grandes Coisas pra mim mas são só coisas, coisinhas. nada serve pra dizer.

tem tanta coisa que eu não quero que é um milagre ainda querer alguma coisa.

tem tanta coisa que fica pela metade. tenho a impressão de que quase tudo fica incompleto, insatisfeito, boiando & esperando alguma resolução, como um balão amarrado no meu pescoço.

me sinto patética, chacoalhando meus punhos minúsculos & ridículos contra uns portões de ferro que me impedem de chegar a algum lugar, algum lugar que eu nem sei se quero, que nem sei se é, que nem sei o que é.

na minha cabeça, quase nada faz sentido.

sou exigente & soturna, fico olhando por cima do aro dos óculos pra cada palavra que surge na minha direção & bebo todas elas com o desespero dos náufragos que só vêem água salgada por semanas, meses. e quero mais, muito mais.

me dê, eu quero, eu peço, eu mereço, eu não mereço, tá bom, não quero assim, não de você, me deixa em paz, não quero nada, eu imploro, saia, que seja, nem tente, agora, do meu jeito, de outro jeito, naturalmente, por favor, sinto muito, que se foda, tá tudo errado, tá tudo certo, é isso mesmo & o que mais? sim, muito mais, muito menos, me dê. não, não pense nisso. não é isso. é sempre outra coisa, parece. não é por sua causa, não seja tão egocêntrico.

ignore tudo isso, vamos rebobinar e recomeçar. é simples, muito simples.

eu sou absurda, completamente absurda. veja o mapa que eu desenhei, começa aqui. pra onde vai? completamente absurda. você quer assim? é assim.

vem me ver dormir que você entende.

que absurdo.

No comments: