26.1.04

imaginemos. uma tira de tecido que cai de uma janela do topo de uma torre, uma escada de fuga, lençol, fronha, sobrelençol. a corda improvisada nem chega na metade da altura, o vento chacoalha o pano pra lá & pra cá.

lá de debaixo da torre, você pode ver uma mão que amarra uma ponta de lençol no parapeito da janela. duas mãos, aliás. mãos cheias de anéis pesados de prata. mãos que tremem. mãos de menina.

antes de fechar os olhos e contar até três, a dona dessas mãos olha uma última vez o espelho cansado daquele mesmo rosto. um, dois, pulo. pendurada, descendo, mãos queimando nos nós, pernas chachoalhando desconexas, uma pegada em falso, o chão tão longe, o fim da corda.

faltam quatro? oito? quinze metros? ela nunca foi boa com números.

olhando pra baixo, os pés só de meia em primeiro plano e lá longe, grama verde. ela respira fundo, se solta e o céu some. o vento bate na corda, a corda bate no rosto, o rosto se fecha pra agonia do corpo, o corpo encontra o chão.

como a bandeira de um país imaginário, os lençóis dançam no alto. deitada de costas no chão, a carne gritando, ela abre bem os olhos & estica as pernas & lambe os lábios & espalma as mãos. aparentemente inteira. o quadril arde bastante, os gatos caem de pé, as pessoas, de bunda. esfoladas as mãos & o cotovelo, as costas latejando.

com um esforço quase descomunal, ela consegue sentar. os dedos se enroscam naquilo que parecia grama, quando olhava lá de cima, mas que é muito mais áspero. o rosto encara a base da torre, pedras enormes amontoadas em paredes grossas. grossas demais. um suspiro.

do lado oposto, árvores se enfileiram desordenadas até sumirem na distância. mesmo se do outro lado da torre houvesse um caminho muito mais simples, ela ainda assim seguiria pela floresta. dias, meses, anos imaginando que tipo de vida & som se esconde por baixo daquelas copas escuras.

ela fica de pé, limpa a roupa, levanta o rosto pra janela. imagina. imagina estar lá em cima, o espelho enorme na parede, o armário com roupas todas repetidas.

brusco, um pássaro grita na distância. brusca, ela se volta para a floresta.

imaginou?

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