6.12.03

"there's nothing on the top but a bucket and a mop
and an illustrated book about birds
you see a lot up there but don't be scared
who needs action when you got words?"



Deitada na Arcádia Entreguei o último trabalho do semestre já. É estranho isso, me ver livre das obrigações de ler isso & aquilo & aquele outro, ter que adiar algumas coisas que eu gosto de fazer por outras. Agora, o tempo é meu.

Ainda assim, na unicamp, parece que o tempo sempre é meu. O ritmo do tempo, por lá, é o meu ritmo. Às vezes eu desco aquelas escadarias quase rolando, outras fico deitada na arcádia, olhando a luz sendo filtrada pelas folhas, ouvindo músicas & conversas.

Quem vê essas caras inocentes nem imagina... Gosto de sentar no corredor e ficar conversando com a S. e o F.. Às vezes a gente faz tanto escândalo, rindo e se pegando, que quando eu vou reparar, tá todo mundo olhando pra gente. Tanto faz. Se o F. é desvairado, imagino que desvairio seja contagioso :)

Duas Doentes

Gosto de vagar com a V. pelos ermos, de falar coisas sérias & bobas com a mesma intensidade, virar a madrugada teoricamente estudando, cantar músicas comendo metade da letra.

Gosto de estudar o que eu estudo, gosto muito. Por algum tempo eu fiquei incerta, pensando que diabos eu estava fazendo lá. Letras? O que é isso, pra que serve? Agora eu não imagino que qualquer outra coisa fosse me fazer sentir assim. Encaixada até. Mesmo as coisas chatas, eu engulo... tem muito mais coisa boa.

Gosto de receber meus textos de volta, rabiscados das letras semi-legíveis dos especialistas em literatura medieval, anarquia, métrica poética, teatro moderno. Gosto de ouvir os elogios e as críticas. Fervilho de idéias, de orgulho.

"Eu que fiz", penso.

L. & o livro do Yeats Ontem mesmo, um professor me chamou pra assistir um curso com a pós-graduação no ano que vem, sobre Marlowe. É o segundo semestre em que me chamam pra ter aulas com a pós. Me sinto boa, mais boa que o suficiente até.

Gosto de tropeçar no L. Estranhamente, quando a gente fala "amanhã eu vou estar em tal lugar, tal horário", a gente nunca está. No fim, a gente se encontra é por acaso, numa descida de escada, no ponto de ônibus, num corredor da biblioteca. Ele é aquele que canta música dos Kinks, fala francês e toca minha campainha às quatro da manhã. O próprio.

T. em estilo noir Mesmo estando louca pra morar sozinha ano que vem, eu não posso dizer que, argh, enjoei de morar com a T. Claro, às vezes eu me encho, fico irritada, tenho vontade de bater com a frigideira e tudo. A gente tá morando juntas há dois anos, supõe-se que haja atrito, né? Não consigo imaginar praticamente ninguém com quem eu aguentaria morar dois anos sem começar a odiar. Mas nem odeio ela. Gosto, gosto bastante. A T.

Fico satisfeita, de certa forma, quando olho pra essas gentes que eu conheci, pra essas coisas que eu descobri, pra esses mundos que eu criei, pros parágrafos todos escritos, pras mais de dez carteirinhas de biblioteca recheadas de carimbos.

Não sei se era isso o que eu esperava quando vim pra cá, nem sei se esperava alguma coisa. "Todo princípio é involuntário", me disseram. E eu já sabia que o fim não importa, importa é o caminho. Ligando as duas coisas, talvez nem o começo importe então. O negócio é andar.

E depois? O amanhã que cuide de si mesmo, que eu me ocupo de agora.

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